VERSÃO IMPRESSA
anteriores
EM CAMPO LARGO 18º | 27º
Quarta-feira | 21 de Fevereiro de 2018 12:03

Gêmeos Ana Vitória e Asaph completarão um ano no próximo dia 20 de fevereiro

A história teve alcance mundial e entrou para a literatura da Medicina. A mãe das crianças foi declarada com morte cerebral, mas mantida “viva” e gestou os bebês por mais 123 dias

Por: Caroline Paulart

Um ano de “um milagre” que despertou os olhos da Medicina mundial para Campo Largo. No dia 20 de fevereiro de 2017 nasceram os gêmeos Ana Vitória e Asaph, gerados pela mãe Frankielen da Silva Zampoli Padilha, que teve morte encefálica declarada no dia 17 de outubro de 2016. Os bebês foram mantidos 123 dias no útero da mãe, que teve seus sinais vitais mantidos por aparelhos e medicamentos, permitindo que as crianças fossem geradas.

Não havia sido encontrado registro anterior a esse, o que colocou a gestação e o nascimento entre as notícias da editoria de Saúde no Brasil e no mundo todo. À época, o diretor do Hospital do Rocio, Dr. Luiz Ernesto Wendler, destacou o caso mostrando a força de uma mulher, que resistiu e permitiu que seus filhos nascessem saudáveis, além de ajudar a salvar outras vidas, pois foi doadora das córneas, rins, coração, fígado e pâncreas, levados à Central de Transplante.

Em entrevista à Folha de Campo Largo, a avó das crianças, Ângela Maria Sousa da Silva, que reside na cidade de Contenda, contou como estão as crianças hoje. “Elas estão bem fortes e saudáveis. São crianças muito abençoadas, com uma saúde de ferro. Não tiveram nenhum tipo de complicação ou sequelas e estão se desenvolvendo muito bem. Levo eles ao médico pediatra aqui na cidade mesmo, apenas para consultas de rotina, como todos os bebês fazem.”

As crianças moram com a avó, inclusive a irmã mais velha, que atualmente tem dois anos e meio. Dona Ângela conta que elas ainda não andam ou falam porque nasceram prematuros extremos. “O pediatra explicou que eles estão na verdade completando nove meses ainda. Mas já sentam e brincam bastante, especialmente com a irmã mais velha”, completa.

Apesar de ser um sentimento dúbio, a avó diz que os netos são um conforto para ela. “Eles são minhas vidas agora. É um consolo cuidar dessas crianças, pois eu perdi minha filha também, mas ganhei eles. Dedico minha vida somente para cuidar deles e acabei mudando até a minha rotina para isso. Eles são milagres, meus netos são meus anjinhos, presentes de Deus”, enfatiza.

 

Sobre os profissionais do Rocio que atenderam e desempenharam um papel importante durante todo o internamento da Frankielen e dos bebês, a avó só tem a agradecer. “Eles fizeram um trabalho lindo e primordial para que tudo desse certo. Tudo foi feito pelo SUS e eu não senti diferença no tratamento, nem com a Frankielen, nem com os bebês. Eles cuidaram da minha filha e dos meus netos com muito amor e carinho, se dedicaram de coração. É uma equipe maravilhosa, como já disse para eles, são anjos que Deus colocou na Terra para realizar milagres”, disse a avó Ângela.

Único caso no mundo

A Folha de Campo Largo conversou com o Dr. Dalton Luiz Rivabem Junior, médico intensivista e coordenador do procedimento que manteve a Frankielen gestando por mais 123 dias, que contou as dificuldades de um procedimento único até então no mundo todo. “Na literatura tivemos apenas 30 casos de mulheres em morte cerebral que continuaram gestando uma criança. Apenas três casos no Brasil, contando com o nosso. Apenas mais um era gestação gemelar, que aconteceu nos Estados Unidos. Nunca antes dois bebês, cuja mãe teve morte encefálica decretada quando ainda estava na nona semana de gestação, ficaram 123 dias no útero e foram gerados com tanta saúde, quanto essas crianças. É um caso muito raro e que, nessas condições, pode levar algum tempo para aparecer”, diz.

Ele contou que no início, quando Frankielen deu entrada no hospital com hemorragia cerebral, foram esgotados todos os recursos para mantê-la viva, mas após três dias e muitos exames foi decretada morte cerebral. “Quando há morte cerebral, há duas alternativas: a primeira é a doação de órgãos, autorizada pela família, ou a segunda é desligar os aparelhos. É contra lei manter alguém nessa condição ainda ligado às máquinas, é configurado como ocultação de cadáver. Nessa ocasião, havia mais duas vidas ali, então temos que seguir o protocolo que respeita o desenvolvimento dessas crianças. É comum que elas sobrevivam por três dias, até cessarem os batimentos cardíacos, o que não aconteceu nesse caso. Passou uma semana, um mês, quatro meses e deixou toda a equipe muito surpresa, pois eles nasceram com muita saúde”, relembra o médico.

Era uma equipe bem extensa que cuidou da mãe e das crianças, que envolveram médicos, enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas, terapeutas, músicos, entre outros colaboradores. Em uma breve pesquisa no site de buscas, é possível ver reportagens que foram divulgadas em todo o mundo, em jornais com influência mundial, como The Sun, The New York Post, The Guardian, BBC, Fox News, além de canais russos, alemães, japoneses, entre outros.

“Foi um momento bem difícil, porque não tínhamos literatura, não sabíamos onde pesquisar. Só tinha como referência um caso em Portugal, no qual a mulher ficou 106 dias nessa situação, íamos conversando. Foi um crescimento profissional e pessoal muito grande para todos da equipe. É uma alegria muito grande saber que eles estão bem, completando um aninho de vida. Esse é um verdadeiro milagre”, finaliza o médico.

Trabalho de acolhimento

Ao longo dos 123 dias de internamento e manutenção da gestação de Frankielen, a equipe do Hospital do Rocio se mobilizou para acolher da melhor forma possível os bebês que estavam sendo gerados. “Nós entendemos que eles precisavam de todo o carinho recebido durante uma gestação. Eles precisavam se sentir desejados, passar alegria para eles, mesmo em meio a uma tristeza que nós estávamos presenciando. Foi depois de muita conversa, muita oração que conseguimos desenvolver o trabalho de musicalização e contação de histórias, pois durante uma gestação dita ‘normal’, todas as mães e familiares conversam com os bebês”, contou a capelã Érika Checan.

A partir da 18ª semana de gestação, os bebês já podem ouvir sons vindos de fora da barriga da mãe. Pensando nisso, foram utilizados os sons para interação e principalmente técnicas de improvisação e recreação, com paródias de conhecidas músicas infantis, com objetivo de estabelecer uma relação com os bebês, tudo com autorização do pai e da avó das crianças e de forma voluntária durante todo o processo.

“Foi simplesmente mágico, um verdadeiro milagre. Deus nos conduziu de forma absurda. Me arrepio de lembrar que durante as conversas e as músicas, a barriga da Frankielen se mexia bastante, provando que ali existiam vidas tão preciosas. Durante algum tempo me preparei também para me aproximar da mãe, apesar da ciência dizer que ela já não estava mais ali, ela manteve aquelas crianças, era um ser humano amado por todos os familiares. Foi tudo conduzido pelo Espírito Santo, não tenho dúvidas”, acrescentou.

Érika contou que ficou bem próxima da família e o relacionamento acabou ultrapassando os muros do hospital. Ela chegou a visitar a família em Contenda e gravou um CD com as músicas e histórias que eram contadas durante a gestação para que as crianças ouvissem.

No próximo dia 20, o Hospital do Rocio fará uma comemoração interna, dando graças pelo aniversário das crianças que marcaram a história da instituição. “Nossa celebração será entre nós, colaboradores do Rocio, mas meu pedido é que todos que saibam dessa história reflitam no poder de Deus, em como Ele guiou esses meses até o nascimento e em como guia até hoje. Peça por eles, por todas as pessoas que passam por hospitais e pelas equipes que atendem a todos com tanto carinho”, finaliza.

 

 

4639 visitas








Sua Opinião