A conquista de um lugar no pódio no Ironman 70.3 Curitiba, na categoria de 60 a 64 anos, é resultado de uma trajetória construída com disciplina, constância e paixão pelo esporte. Praticante de triatlo desde 2006, a campo-larguense Angela Kuroski Kusma transformou a rotina e a própria vida por meio da modalidade, que a levou a competir em diferentes lugares do Brasil e do exterior.
Angela relembra em entrevista à Folha que já participou várias vezes de provas de Ironman 70.3 e Full, mas diz que a edição de Curitiba foi diferente. “Essa de Curitiba foi diferenciada, tanto pela dificuldade do percurso, como também por ser mais prazerosa, por estar em ‘casa’. Com a torcida, todo o sofrimento da prova fica para trás”, afirma.
A relação de Angela com o esporte começou antes mesmo do triatlo entrar em sua vida. Desde 2006 na modalidade, ela já corria na rua e na esteira e lembra que chegou a participar da Corrida da Mulher simplesmente por gostar de correr. Na época, estava com 40 anos. Também já gostava de aulas de spinning e de pedalar.
A entrada na natação aconteceu de forma prática e quase por “acaso”. Ao colocar o filho em aulas da modalidade, percebeu que poderia aproveitar melhor o tempo. “Eu vi que, em vez de ficar uma hora esperando por ele na aula, poderia aprender a nadar também”, recorda.
Foi nessa fase que recebeu um convite que mudou sua trajetória. O professor de spinning, que já sabia que ela corria e pedalava bem, a chamou para integrar a equipe de triatlo. Angela aceitou o desafio em um período em que a atleta Fernanda Keller vivia grande destaque no esporte. “Foi então que entrei para a equipe. Eu tinha apenas mais uma mulher junto”, conta.
A certeza de que havia encontrado o esporte da vida
Se o ingresso no triatlo começou por incentivo, a confirmação veio no mar aberto. Foi ali que Angela percebeu que havia encontrado a modalidade com a qual realmente se identificava. “Quando nadei em mar aberto foi que senti que o triatlo realmente era o esporte da minha vida e como eu gostava de praticar essa modalidade”, diz.
A inspiração também vinha de um dos maiores nomes do triatlo brasileiro. Fernanda Keller, referência para Angela naquele momento, é a única atleta do mundo a ter disputado e completado todas as edições do Ironman havaiano, considerada a competição mais difícil da modalidade. A prova reúne 3,8 quilômetros de natação, 180 quilômetros de ciclismo e 42 quilômetros de corrida, em quase 10 horas de esforço contínuo. Ao longo da carreira, Fernanda participou por 23 anos consecutivos do Campeonato Mundial de Ironman, no Havaí, e terminou 14 vezes entre as dez melhores atletas.
Foi em 2010 que Angela disputou sua primeira prova de Ironman 70.3. Como começou a nadar mais tarde, reconhece que nunca teve tanta velocidade na água e que, em algumas ocasiões, chegou a ser a última a sair da natação. Mas era na bicicleta que conseguia virar o jogo. “Na natação, por vezes eu era até a última a sair da água. Porém, na bike eu me sobressaio e consigo retomar posições perdidas, pois tenho 90 km para recuperar. Chego a fazer 30 km por hora”, relata.
Desde então, construiu uma trajetória extensa na modalidade. Participou de todas as provas do Ironman do Brasil, competiu em Cozumel, no México, em Nova Iorque — onde conquistou o primeiro pódio da vida — e também na Europa.
A vaga mais disputada: correr em casa
Mesmo experiente, Angela precisou superar um obstáculo antes mesmo da largada em Curitiba, que era conseguir a inscrição. Quando surgiu a oportunidade de disputar a prova na capital paranaense, ela estava preparada para garantir sua vaga, mas acabou ficando de fora no primeiro momento. Toda a equipe conseguiu se inscrever, menos ela.
A chance reapareceu duas semanas depois, quando duas vagas seriam disponibilizadas para disputa em todo o Brasil. A partir daí, amigos e familiares se mobilizaram para ajudá-la por meio de QR-Code. “Quando começou a disputa, às 6h30, uma amiga avisou que tinha conseguido. Foi a maior festa. Eu finalmente tinha conseguido a vaga que permitiria disputar o Ironman no quintal de casa”, afirma.
A preparação para o Ironman 70.3 Curitiba exigiu ainda mais de Angela. Aos 60 anos, ela encarou o que considera ter sido o percurso mais difícil entre as provas disputadas no Brasil, tanto pelas características do trajeto quanto pelas mudanças naturais do corpo ao longo do tempo.
“Foi então que começaram os treinos para o Ironman 70.3 Curitiba, aos 60 anos, sendo esse o mais difícil, tanto pelas questões de trajeto, como também pelo corpo, que já não é o mesmo de quando comecei”, conta.
Ela observa também como a presença feminina diminui nas faixas etárias mais altas. Em Nova Iorque, lembra que havia 69 candidatas em sua categoria. Em Curitiba, eram apenas quatro. Na faixa dos 65 anos, havia somente uma atleta inscrita.
Para Angela, o avanço da idade mexe muito com a mulher, mas a prática constante de atividade física pode fazer diferença nesse processo. “A constância e o exercício físico acabam sendo essenciais para atravessar essa fase complexa com mais saúde e disposição”, diz.
A rotina dela ajuda a explicar o desempenho. Angela afirma que acorda às 4h para correr, pratica natação às 6h, além de pedalar e fazer musculação. “O esporte transformou a minha vida”, resume. Segundo ela, foi também por meio dele que conheceu diferentes lugares do mundo com uma experiência que vai além do olhar de turista.
Na avaliação da atleta, a prova em Curitiba foi especialmente exigente. O grau de dificuldade aumentou ainda mais depois da mudança no percurso, principalmente por causa das subidas no ciclismo — justamente seu ponto forte. “A prova foi muito difícil, especialmente depois que mudaram o percurso, por conta das subidas de bike”, afirma.
Mesmo com a familiaridade com a bike e a experiência acumulada em outras edições, ela não hesita em classificar a etapa curitibana como a mais complicada entre todas as provas que já fez no país. “No Brasil, como eu disputei todas, essa com certeza foi a mais difícil de todas. A minha experiência e conhecer o trajeto ajudaram”, diz.
Pódio em casa e vaga para o Mundial
O desempenho em Curitiba garantiu a Angela uma vaga para o Mundial de Nice, na França. Apesar disso, ela decidiu não aceitar a classificação. Como já conhece a região e considera alto o custo para participar, optou por passar a vaga adiante.
Ainda assim, a atleta não pensa em desacelerar. A intenção é seguir competindo em outras provas de Ironman, inclusive no Havaí. Se a vaga para o Mundial ficou em segundo plano, o pódio conquistado perto de casa teve peso emocional único. “Pegar o pódio na região onde cresci, com a família e amigos próximos, foi uma sensação surreal, com muita alegria”, afirma.
A prova foi disputada em 8 de março, Dia Internacional da Mulher, data que também reforçou o tom simbólico da participação de Angela. Mais do que celebrar um resultado, ela diz querer incentivar outras mulheres a praticarem atividade física e a manterem a disciplina em busca de uma vida melhor. “Sinto-me feliz por ouvir que sou inspiração para meninas mais jovens”, conta. Ao falar sobre sua trajetória, Angela deixa um recado direto, especialmente ao público feminino: praticar exercícios físicos e manter a disciplina pode transformar a vida em qualquer idade.