Opinião

Quando até o básico pesa no bolso

Quando até o básico pesa no bolso

Quem não tem uma conta para pagar? Mesmo em uma economia saudável, conviver com dívidas faz parte da realidade, pois envolve financiar um imóvel, um veículo ou investir em um bem durável. Isso é uma decisão comum e, muitas vezes, necessária para a construção do patrimônio familiar, mas o problema começa quando o crédito deixa de financiar sonhos e passa a sustentar necessidades básicas, como quando o brasileiro precisa recorrer ao parcelamento para colocar comida na mesa.
No Paraná, 87,2% das famílias estavam endividadas em junho, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), porém, mais preocupante do que o percentual de endividados é o avanço da inadimplência. Em apenas um mês, o número de famílias com contas em atraso saltou de 15,2% para 16,7%, enquanto também aumentou a parcela daqueles que afirmam não ter condições de quitar suas dívidas. Não se trata apenas de pessoas utilizando crédito, mas de famílias que já perderam a capacidade de manter suas finanças sob controle.
O retrato do consumo também mudou, visto que o cartão de crédito continua sendo o principal responsável pelo endividamento, mas chama a atenção o crescimento dos carnês de lojas, que, pela primeira vez em quase 13 anos, superaram o financiamento imobiliário entre os tipos de dívida. Isso mostra que cada vez menos famílias conseguem investir em patrimônio, enquanto cresce o parcelamento de compras do dia a dia. O crédito faz o contrário do seu propósito incentivado por economistas quando passa a servir para suprir necessidades imediatas, e não para construir o futuro.
Essa realidade fica ainda mais evidente diante da alta persistente dos alimentos. Carne, café, arroz, feijão, leite e ovos passaram a ocupar uma fatia cada vez maior do orçamento doméstico. Para quem possui renda elevada, muitas vezes é possível substituir um produto por outro, mas para quem vive com o orçamento no limite, a alternativa costuma ser reduzir a quantidade comprada ou simplesmente abrir mão de determinados alimentos. A inflação pesa para todos, mas seus efeitos são muito mais severos entre as famílias de menor renda.
Nesse contexto, surgem situações que simbolizam a perda do poder de compra, como o parcelamento de refeições por aplicativos, prática que recentemente ganhou espaço no mercado e talvez seja o exemplo mais claro dessa mudança de comportamento. Não deve ser tratada como uma inovação financeira ou mera conveniência, mas o retratado de uma população que precisa financiar o jantar e tem dificuldade de fechar as contas no fim do mês.
É preciso reconhecer que a economia não é medida apenas pelos indicadores oficiais. Ela é percebida, sobretudo, na rotina das famílias. É essa experiência cotidiana que determina a sensação de bem-estar ou de dificuldade da população. Independentemente de quem ocupe o governo, recuperar o poder de compra do brasileiro deve ser uma prioridade nacional. Isso exige responsabilidade fiscal, controle da inflação, ambiente favorável aos investimentos, redução do peso dos impostos sobre o consumo e políticas capazes de estimular emprego e renda.

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