Não houve um dia marcado no calendário, nem um aviso de que, a partir dali, seria preciso levar a vida mais a sério
Talvez você não se lembre exatamente de quando deixou de ser criança. Não houve um dia marcado no calendário, nem um aviso de que, a partir dali, seria preciso levar a vida mais a sério. Um dia foi a última vez que você brincou na rua, pegou suas bonecas ou empinou pipa. Em algum momento, as brincadeiras foram substituídas pelas responsabilidades, os sonhos pelas preocupações e a imaginação pela necessidade de resolver problemas concretos. Pois é, olha como você cresceu. E, como quase todo adulto, aprendeu a carregar uma série de coisas que não faziam parte do seu mundo quando era criança.
Mas quando foi que você parou de sonhar? Quando deixou de imaginar que poderia ser qualquer coisa? Quando começou a considerar alguns desejos “bobos demais”, alguns planos grandiosos demais e algumas vontades infantis demais para alguém da sua idade? Brincar passou a parecer perda de tempo e aquele que um dia era capaz de fazer nascer mundos inteiros, passou a ser preenchido por qualquer outra coisa com um sentido temporário.
Ser adulto é, de fato, lidar com coisas que uma criança não precisa conhecer. Há decisões, perdas, frustrações, contas, responsabilidades e notícias que pesam tanto que fazem parecer que sorrir exige um grande esforço. Mas talvez, de vez em quando, é preciso voltar alguns passos, não para morar no passado ou fingir que os problemas não existem, mas para compreender de onde viemos, revelando desejos esquecidos, talentos abandonados e partes de nós que ficaram pelo caminho enquanto aprendíamos a ser adultos.
Existe uma criança dentro de cada um de nós que um dia encontrou felicidade em coisas aparentemente pequenas; em atividades que não precisavam produzir nada, render dinheiro, melhorar o currículo ou justificar sua existência. Elas simplesmente faziam sentido porque proporcionavam alegria e talvez tenhamos que reaprender com essa criança que ficou para trás.
Por isso, talvez não seja preciso esperar que a vida fique mais leve para voltar a fazer algumas dessas coisas. Procure uma fotografia antiga, relembre daquela criança que ficou marcada no tempo e faça algo simplesmente porque gosta, sem precisar explicar para ninguém qual é a utilidade daquilo. Perceba que algumas brincadeiras jamais deveriam ter recebido o rótulo de “coisa de criança”, porque a criatividade, a curiosidade, a capacidade de se encantar não são coisas de criança, mas são coisas de humanos.
Você pode perceber que, ao olhar para trás, também é um jeito de seguir em frente. Há sonhos que talvez ainda façam sentido, outros podem ter mudado, e está tudo bem. Às vezes, a criança que fomos não tem uma resposta pronta para os problemas do adulto que somos, mas pode lembrar o objetivo das decisões tomadas por nós hoje. Por isso, neste Dia das Crianças, o convite é também para os adultos. Por algumas horas, deixe de lado a obrigação de parecer forte, ocupado e responsável o tempo inteiro e permita-se voltar a divertir-se genuinamente.