Em meio aos tradicionais desejos de brinquedos, videogames e presentes que marcam a época do Natal, uma carta escrita por um menino de 11 anos, do Estado de São Paulo, emocionou o país. Em vez de pedir algo para si, ele expressou um desejo simples e profundo ter um Natal feliz ao lado da mãe, que enfrenta um recente diagnóstico de depressão. A criança escreveu contando que a rotina da casa mudou desde o diagnóstico, marcada por desafios e pela ausência de apoio de outros parentes. Ele vive com a mãe e três irmãos, enquanto outros seis não mantêm contato com a família. Em sua carta, Paulo falou de perdas, saudade, fé e do desejo de ver a mãe bem, sentimentos que traduzem o impacto que doenças emocionais têm sobre todos ao redor, inclusive sobre as crianças.
Para compreender melhor sobre esse tema, que também pode acontecer em Campo Largo, a Folha conversou com a psicóloga Priscilla Chervinski, que explica que famílias que convivem com alguém em sofrimento psíquico também precisam se cuidar. “Ninguém consegue oferecer apoio quando está esgotado. Cuidar da própria saúde mental ajuda a desenvolver paciência, equilíbrio e a reconhecer limites, fatores essenciais para enfrentar o processo de cuidado com mais leveza.”
Segundo a psicóloga, sinais de desgaste emocional costumam aparecer em cuidadores que lidam com doenças como a depressão. Entre os mais comuns estão o esgotamento, a preocupação constante, alterações de sono, irritabilidade e cansaço físico. Quando esses sintomas surgem, é importante buscar apoio e dividir responsabilidades, evitando que o cuidado se transforme em sobrecarga.
Crises podem afetar a todos
Ressalta também que crises emocionais em adultos também afetam crianças que convivem com eles. Segue dizendo que as crianças ainda estão aprendendo a compreender e regular as próprias emoções e não conseguem entender plenamente o sofrimento emocional dos adultos. Nesses contextos, podem sentir falta de atenção, acolhimento, previsibilidade, estabilidade emocional e paciência, fatores essenciais para um desenvolvimento saudável.
Questionada se o impacto emocional nas crianças pode favorecer o desenvolvimento de transtornos mentais no futuro, ela ressalta que pode ser um fator de risco, embora não seja o único. “Os responsáveis devem observar mudanças de comportamento, como regressão no desenvolvimento, quando a criança volta a fazer necessidades fisiológicas na cama após o desfralde, choro frequente, irritabilidade excessiva, isolamento ou alterações no rendimento escolar. Ao identificar qualquer sinal persistente, é importante buscar ajuda profissional para avaliar se esses comportamentos indicam algum sofrimento emocional e, se necessário, iniciar o acompanhamento adequado, prevenindo que o problema se torne mais grave no futuro”, indica.
A psicóloga lembra que não só as crianças, mas qualquer membro da família pode adoecer emocionalmente quando exposto a estresse prolongado, conflitos constantes ou sensação de responsabilidade excessiva. Por isso, falar abertamente sobre sentimentos e compartilhar o cuidado é fundamental para que ninguém se sinta sozinho.
Histórico familiar
Quando há histórico familiar de transtornos, a atenção deve ser redobrada. Fatores biológicos, psicológicos e sociais podem ser associados, mas a prevenção passa por hábitos saudáveis, acompanhamento precoce e vínculos fortalecidos. Em situações extremas, como tentativas de suicídio ou perdas após longos períodos de cuidado, a busca por sentido se torna parte essencial da reconstrução emocional. Apoio profissional, espiritualidade e a presença de pessoas queridas ajudam na elaboração do luto.
Priscila reforça que a rede de apoio é um pilar indispensável tanto para quem enfrenta a doença quanto para quem está ao lado. “Ela pode incluir profissionais, serviços públicos, amigos e grupos comunitários. Muitas vezes, o primeiro passo é procurar o CAPS, clínicas-escola de universidades ou psicólogos indicados por conhecidos. Cuidar da saúde mental é um compromisso coletivo. Falar sobre o tema com clareza e acolhimento reduz o estigma e facilita que as pessoas busquem ajuda no momento certo. Nenhuma família precisa enfrentar tudo sozinha. Uma rede de apoio forte faz toda a diferença”, finaliza.
Saúde
Pedido de criança por saúde emocional da mãe ressalta necessidade de cuidar também de quem cuida