Próximo do Dia Nacional de Combate às Drogas e ao Alcoolismo, celebrado em 18 de fevereiro, a reportagem da Folha de Campo Largo visitou a estrutura do Instituto de Pesquisa e Tratamento do Alcoolismo (IPTA) para entender como funciona, na prática, o atendimento hospitalar especializado em dependência química oferecido pelo Sistema Único de Saúde, localizado no município, mas que atende pacientes de todo o Paraná.
Fundada em 1987, em Campo Largo, em meio às transformações do modelo de atenção em saúde mental no Brasil, a Associação de Pesquisa e Tratamento do Alcoolismo (APTA) se aproxima de quatro décadas de atuação oferecendo cuidado fora do padrão dos antigos manicômios. Mantida por entidade filantrópica e com atendimento 100% pelo SUS, a instituição abriga o IPTA, hospital psiquiátrico com 48 leitos que se tornou referência estadual no cuidado de homens adultos com transtornos relacionados ao uso de álcool e outras drogas, como cocaína e crack.
Ao longo de quase 40 anos de funcionamento contínuo, a instituição acompanhou mudanças nas políticas públicas de saúde mental e consolidou um modelo próprio de cuidado, baseado em internações de curta duração, atuação multiprofissional e integração com a rede pública estadual. Os pacientes são encaminhados de diversas regiões do Paraná por meio da Regulação Estadual de Leitos.
De acordo com o diretor-geral do hospital, Luciano Lacerda, a criação da entidade está ligada a uma mudança de paradigma no cuidado em saúde mental. “A Associação de Pesquisa e Tratamento do Alcoolismo, que é a APTA, foi fundada em 1987 e a origem é muito bonita porque, na verdade, nesse período o país atravessava o movimento da luta antimanicomial. Os tratamentos com relação à dependência química ficavam centralizados naqueles grandes hospitais, os chamados à época manicômios, e os pacientes acabavam ficando misturados em alas.”
A iniciativa partiu de profissionais da área e membros de grupos de mútua ajuda do município, que buscaram criar um serviço específico para dependência química. A primeira sede funcionou no Casarão do Parque Newton Puppi até meados dos anos 2000. Posteriormente, com apoio de pessoas e famílias engajadas na causa, a instituição passou a operar em sede própria.
A equipe reforça que o IPTA é uma unidade hospitalar regulada e integrada à rede pública. “Importante frisar que essa é uma unidade hospitalar, um hospital psiquiátrico. Muitas vezes quem vê de fora pode pensar que aqui é uma comunidade terapêutica, mas não. Nós somos 100% SUS e ofertamos 48 leitos psiquiátricos especializados em dependência química, onde trabalham cerca de 50 profissionais, no formato multidisciplinar”, afirma Luciano.
A equipe técnica que conversou com a reportagem é formada por Eva Switalski, assistente social; Guilherme Duprat Marques, psicólogo; Claudinei Nunes Costa, técnico em dependência química; Aline Navarro, terapeuta ocupacional; e Eliane Franqueto, arteterapeuta. Segundo eles, todos os pacientes passam por avaliação prévia e o modelo adotado é de internação voluntária, com adesão formal e consentimento do próprio paciente, fator considerado decisivo para o processo terapêutico.
“O internamento no IPTA é de 60 dias. Esse é o período ideal de afastamento nas unidades hospitalares para que o paciente consiga se reorganizar e estruturar a continuidade de tratamento longe do uso. Há casos específicos em que, por avaliação multidisciplinar, esse período pode ser estendido por até mais 30 dias”, explica o diretor.
Desintoxicação, grupos e método em fases
Ao chegar à instituição, o paciente passa por uma etapa clínica inicial. “Ele é encaminhado para a unidade de desintoxicação, onde permanece por no mínimo 48 horas, sendo observado diretamente pela equipe, que monitora principalmente os efeitos da abstinência, para depois ser integrado ao grupo terapêutico”, explica o psicólogo Guilherme.
Na sequência, o paciente passa a participar do chamado grupo de circulagem. “Ele é admitido na primeira cadeira à esquerda. Quem está mais à esquerda está entrando, quem está mais à direita está saindo. É como um espelho: quem está chegando vê quem pode ser amanhã, e quem está saindo consegue reconhecer como chegou”, diz Eva.
O tratamento é dividido em fases e envolve psicologia, serviço social, terapia ocupacional, acompanhamento médico e atividades artísticas e corporais. Um dos momentos centrais é o processo chamado História de Vida. “O paciente resgata e escreve sua autobiografia e, em um momento específico, lê essa história para os companheiros, com mediação do psicólogo. É uma espécie de ápice do tratamento, com muitos insights sobre a dependência”, relata Guilherme.
A rotina inclui atividades diárias de organização e responsabilização. “Temos o grupo de programação, com vistoria de quartos, organização de armários e combinados de convivência. A mensagem é que ele merece cuidado e estrutura, e também precisa devolver isso cuidando do espaço”, explica a equipe.
Família e cuidado continuado
O modelo terapêutico considera que o impacto da dependência química alcança também o núcleo familiar. “Realizamos grupos semanais com familiares. Entendemos que é uma doença sistêmica, em que o entorno também é afetado. Há casos de pacientes sem vínculo familiar, mas quando a família participa, conseguimos compreender melhor o contexto e fortalecer o tratamento”, afirma Eva.
Após a alta, não há vínculo obrigatório, mas existem estratégias de acompanhamento voluntário. “Temos o IPTA Online, com reuniões virtuais semanais de ex-pacientes em formato de mútua ajuda. Hoje são mais de 60 participantes de diferentes cidades do Paraná”, diz Claudinei.
Filantropia, gestão e sustentabilidade
Mantido por entidade filantrópica certificada, o hospital opera com recursos do SUS e complementação por meio de parcerias e projetos. Entre as iniciativas recentes está a implantação de geração de energia solar em parceria com Itaipu e entidades do setor, com objetivo de reduzir custos operacionais. A instituição também desenvolveu ações educativas em parceria com o sistema de Justiça, voltadas à conscientização sobre embriaguez ao volante e violência doméstica.
As doações podem ser feitas diretamente na conta de energia elétrica, em contato com a Cocel, e também via site da instituição.
Contexto nacional do consumo de drogas
Dados nacionais ajudam a dimensionar o cenário em que serviços especializados como o IPTA estão inseridos. Levantamento divulgado pela Universidade Federal de São Paulo em 2025 aponta que cerca de 11,4 milhões de brasileiros com 14 anos ou mais já usaram cocaína ou crack ao menos uma vez na vida, o equivalente a 6,6% da população.
A pesquisa foi realizada em 2023, com 16.608 participantes de 300 municípios, por amostragem probabilística domiciliar, sem incluir população em situação de rua. O estudo indica prevalência maior entre homens e na faixa etária de 25 a 49 anos, além de associação com fatores de vulnerabilidade social e menor escolaridade.
Recuperação e resultados
Para a equipe, o conceito de sucesso no tratamento é progressivo. “Um dia de sobriedade já é importante. Às vezes se olha só para o sucesso absoluto, mas se o paciente ficou oito meses limpo, isso teve valor, trouxe estabilização e aprendizado. Nada é perdido”, afirma Claudinei.
Entre os exemplos citados estão profissionais que hoje integram o quadro técnico após terem sido pacientes. “Temos dois técnicos em dependência química que passaram pelo tratamento aqui e depois foram contratados. São referências para quem está em atendimento”, relata Eva.
“Na admissão, fotografamos o paciente. Alguns pedem para ver a foto na saída. É quando percebem a diferença física e emocional. É a recuperação da imagem que ele tem de si e das possibilidades de vida”, conclui Luciano.


