Os sintomas da endometriose podem variar de uma mulher para outra e nem sempre a intensidade da dor corresponde à extensão da doença
A endometriose ainda é uma condição cercada por desinformação, atraso no diagnóstico e impacto direto na qualidade de vida de milhares de mulheres em todo o país. Embora a cólica menstrual intensa seja frequentemente “naturalizada”, médicos da área alertam que dores incapacitantes durante o período menstrual não devem ser encaradas como algo comum e precisam ser investigadas.
A médica ginecologista Dra. Marina Nunes Machado explica que o diagnóstico da doença ainda costuma ser tardio e, em muitos casos, pode demorar quase uma década para acontecer. “Há casos que levam até 10 anos para chegar a um diagnóstico, porque algumas mulheres pensam que sentir dores durante as cólicas menstruais é normal, mas não é normal e a dor deve ser investigada. Existe ressonância, ultrassom e exames clínicos que podem auxiliar no diagnóstico e na investigação da endometriose.”
O Ministério da Saúde aponta que a média entre o início dos sintomas e o diagnóstico é de aproximadamente sete anos. Esse atraso pode estar relacionado a diversos fatores, entre eles a falta de informação, a semelhança com outras condições ginecológicas e intestinais, além da crença cultural de que sentir muita dor ao menstruar faz parte da vida da mulher.
O diagnóstico é, inicialmente, clínico, baseado na escuta da paciente, no histórico dos sintomas e no exame físico. Quando necessário, exames de imagem como ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal e ressonância magnética da pelve podem ajudar a localizar e dimensionar as lesões. Em algumas situações específicas, a videolaparoscopia também pode ser utilizada como método diagnóstico e terapêutico.
Segundo a especialista, o tratamento depende do grau da doença e do quadro apresentado pela paciente. “Alguns casos da endometriose podem ser tratados clinicamente, com medicações, porém há outras situações que se resolvem com cirurgias”, destaca.
O Sistema Único de Saúde oferece tanto tratamento clínico quanto cirúrgico para a endometriose, seguindo protocolo específico. Entre as abordagens disponíveis estão terapias hormonais, medicamentos para alívio da dor e, quando necessário, procedimentos como videolaparoscopia e cirurgias mais complexas. Além disso, o acompanhamento psicológico também é considerado parte importante do cuidado, já que a doença é crônica e costuma trazer impactos prolongados para a vida das pacientes.
Doença inflamatória e crônica
A médica ressalta que, embora a origem exata da doença ainda não seja totalmente conhecida, uma das teorias mais aceitas relaciona a progressão da endometriose ao próprio ciclo menstrual. “Não se sabe especificamente qual a causa ou a origem da endometriose, mas uma das teorias é que a própria menstruação alimenta as lesões endometrióticas. O fato de as mulheres deixarem para ter filhos mais tarde vai fazer com que elas menstruem mais vezes e assim desenvolvam mais a endometriose, motivo pelo qual estamos vendo um aumento expressivo no diagnóstico da doença entre as mulheres”, explica.
De acordo com o Ministério da Saúde, a endometriose é uma doença caracterizada pelo desenvolvimento e crescimento de tecido semelhante ao endométrio, que é a camada que reveste o interior do útero, fora da cavidade uterina. Esse deslocamento pode desencadear uma reação inflamatória crônica no organismo e acomete entre 5% e 15% das mulheres em idade reprodutiva.
Na prática, isso significa que esse tecido pode se instalar em regiões como ovários, trompas, bexiga, intestino e outras áreas da pelve, causando dor, inflamação e uma série de repercussões físicas e emocionais. O Ministério da Saúde destaca ainda que a doença não afeta apenas o corpo, mas pode comprometer também a saúde mental, a vida sexual, as relações pessoais, a rotina de trabalho e a renda das pacientes.
Sintomas que merecem atenção
Apesar de ser relativamente comum, a doença ainda é subdiagnosticada. Muitas mulheres convivem durante anos com sintomas severos sem receber o acompanhamento adequado, seja por desconhecimento, seja pela normalização da dor menstrual intensa.
Por isso, a Dra. Marina faz um alerta importante sobre a banalização da dor menstrual. “Se sente dor quando menstrua, dor incapacitante, que leva muitas vezes a cancelar compromissos ou ficar de cama, isso não é normal. Procure atendimento médico para a investigação e faça o tratamento”, orienta.
Os sintomas da endometriose podem variar de uma mulher para outra e nem sempre a intensidade da dor corresponde à extensão da doença. Ainda assim, alguns sinais são considerados clássicos e exigem atenção.
Entre os principais sintomas estão a cólica menstrual intensa, dor pélvica crônica, dor durante a relação sexual com penetração, infertilidade e queixas intestinais ou urinárias que aparecem de forma cíclica, especialmente no período menstrual. Em alguns casos, a mulher pode até não apresentar sintomas, o que também contribui para a dificuldade no diagnóstico.
A cólica menstrual que impede a mulher de estudar, trabalhar, manter compromissos ou realizar tarefas do dia a dia não deve ser considerada normal. Quando a dor se torna recorrente e interfere na rotina, a investigação médica passa a ser essencial.
Nos últimos anos, a endometriose tem aparecido com mais frequência nas estatísticas de saúde pública. Segundo dados do Ministério da Saúde, os atendimentos relacionados ao diagnóstico da doença na atenção primária do SUS cresceram aproximadamente 76,24% entre 2022 e 2024, passando de 82.693 para 145.744 registros no período.
O aumento pode estar relacionado tanto à maior procura por atendimento quanto ao avanço da conscientização sobre os sintomas. Ainda assim, o cenário revela que muitas mulheres continuam convivendo com dor e limitações antes de obter uma resposta definitiva.