Uma iniciativa inédita em Campo Largo e no Paraná pretende transformar parte da estrutura do Hospital Infantil Hospital Infantil Waldemar Monastier em um espaço voltado à integração entre medicina baseada em evidências, práticas integrativas e contato terapêutico com a natureza. O projeto, denominado “Jardim do Cuidado”, está sendo desenvolvido em parceria com o Instituto Federal do Paraná (IFPR) – Campus Campo Largo e demais parceiros, e prevê a implantação de um sistema agroflorestal dentro da área hospitalar, além da construção futura de um consultório de vidro em meio ao bosque.
A proposta reúne profissionais da saúde, estudantes e docentes do curso superior de Agroecologia do IFPR, além de parceiros institucionais, em uma ação que busca utilizar a natureza como recurso complementar de cuidado e humanização hospitalar.
O hospital infantil atende pacientes de diversas regiões do Paraná há 16 anos por meio da regulação da Central de Leitos do Estado e não possui porta aberta. A unidade recebe desde crianças internadas por doenças agudas, com permanência curta, até pacientes com doenças crônicas e longos períodos de internação, incluindo leitos de UTI e UTI Neonatal, além de possuir diariamente um grande volume de atendimentos ambulatoriais.
Em entrevista à Folha de Campo Largo, a diretora do hospital, Karina Chiquitti, explica que o projeto começou a ser desenhado a partir das ações internas de humanização e saúde mental voltadas aos colaboradores da unidade. “Quando assumimos a direção, começamos uma reorganização das equipes e fortalecemos o projeto Humanizamente, que surgiu para oferecer acolhimento psicológico aos colaboradores. Criamos um espaço terapêutico dentro do hospital, mas sentíamos necessidade de ampliar isso para um ambiente externo, que também proporcionasse acolhimento e reconexão.”
Segundo Karina, a ideia inicial era implantar um orquidário na instituição, mas a proposta acabou evoluindo após aproximação com o IFPR e discussões relacionadas à agroecologia e saúde integrativa. “A conversa começou de maneira simples e despretensiosa, então a partir disso surgiu a proposta da agrofloresta e imediatamente entendemos o potencial que aquilo tinha para o hospital. Hoje já imaginamos um consultório de vidro dentro do bosque, espaços para terapias integrativas e atividades voltadas aos pacientes, acompanhantes e também aos profissionais”, relata.
A estudante do curso superior de Agroecologia do IFPR Campo Largo, Érica Gallucci, em conversa com a Folha, explica foi possível apresentar uma proposta ao hospital com conceitos ligados à agroecologia e à relação entre saúde e natureza. “A Agroecologia trabalha a interação harmoniosa entre seres humanos e natureza, integrando evidências científicas e saberes tradicionais. A proposta inicial era promover uma oficina para apresentar essa abordagem ao hospital, mas já nos primeiros encontros a direção identificou uma conexão muito forte entre esses princípios e o programa de humanização já desenvolvido pela instituição”, explica.
Conforme Érica, a oficina acabou se tornando o ponto de partida para um projeto mais amplo de Saúde e Natureza dentro do ambiente hospitalar. “O processo evoluiu naturalmente e percebemos a oportunidade de unir os sistemas agroflorestais às práticas integrativas desenvolvidas no hospital. Foi uma construção conjunta.”
Nesta primeira etapa do projeto aconteceu a primeira parte do plantio de mais de cerca de 40 das 60 mudas de espécies nativas, especialmente árvores frutíferas, seguindo princípios agroecológicos de implantação de Sistemas Agroflorestais (SAFs), com expectativa de concluir essa fase até julho. Além da implantação da área verde, o planejamento inclui a construção de estruturas destinadas às atividades terapêuticas e integrativas e a mudança do parque existente hoje no espaço para um parquinho de madeira.
O projeto conta atualmente com participação dos alunos do 5º semestre do curso superior de Agroecologia do IFPR Campo Largo, além do Núcleo de Estudos em Agroecologia da instituição. Segundo a estudante, outros cursos e disciplinas também poderão ser incorporados futuramente.
Medicina integrativa e evidências científicas
Karina enfatiza que a proposta do hospital não substitui tratamentos convencionais, mas pretende atuar de forma complementar à assistência médica já oferecida pela unidade e ressalta que o projeto está sendo construído dentro de uma perspectiva de medicina baseada em evidências e alinhado às práticas integrativas reconhecidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
“Hoje existem evidências científicas sobre os benefícios da exposição à natureza para redução do estresse, melhora da pressão arterial e estímulo imunológico. Muitas práticas integrativas já são reconhecidas pelo SUS e vêm sendo estudadas cada vez mais. O que queremos é integrar isso ao cuidado hospitalar tradicional”, afirma.
Ela cita estudos relacionados ao aumento das chamadas células NK (natural killers), ligadas à resposta imunológica do organismo, após exposição a ambientes naturais. “O que antes era tratado apenas como conhecimento empírico hoje vem sendo estudado cientificamente. Então pensamos ‘por que não trazer isso para dentro do hospital de forma organizada, responsável e integrada ao tratamento médico?’. Foi um dos nossos pontos iniciais”, completa.
Segundo Érica, pesquisas relacionadas à medicina integrativa e aos sistemas agroflorestais vêm crescendo no Brasil e no exterior. “No campo da medicina integrativa já existem evidências consistentes de benefícios relacionados ao contato com a natureza em casos de ansiedade, hipertensão, depressão e recuperação clínica. A oncologia integrativa, por exemplo, já trabalha fortemente com esse conceito”, explica.
Ela segue dizendo que um dos diferenciais do hospital infantil será justamente a integração entre práticas integrativas e um ambiente florestal estruturado dentro do espaço hospitalar. “Poucas instituições conseguem oferecer acesso direto a um ambiente florestal como parte das linhas de cuidado. Essa integração é o grande diferencial do projeto.”
Avaliação dos pacientes e saúde emocional
A direção do hospital explica que os pacientes com doenças crônicas e longos períodos de internação devem ser os principais beneficiados inicialmente pelo espaço terapêutico. “Nem todos os pacientes permanecem muito tempo no hospital, pois alguns internam por poucos dias, já outros passam meses internados ou retornam frequentemente por conta de doenças crônicas. Esses pacientes provavelmente serão prioridade no acesso às atividades integrativas e ao espaço da agrofloresta”, afirma Karina.
Ela destaca que haverá critérios médicos específicos para definir os pacientes elegíveis, especialmente em relação às crianças internadas em UTI. “Existem pacientes de terapia intensiva que conseguem circular pelo hospital acompanhados pela equipe de fisioterapia, mas tudo dependerá da avaliação clínica e dos protocolos médicos.”
Além do impacto terapêutico esperado para os pacientes, o projeto também busca atuar na saúde emocional dos profissionais e acompanhantes. “A ideia não é apenas deixar o hospital bonito. O objetivo é torná-lo mais acolhedor, mais humanizado e oferecer tudo o que for possível para contribuir com o cuidado”, afirma Karina.
Segundo a diretora, a receptividade da equipe foi positiva desde as primeiras apresentações do projeto. “Os profissionais ficaram muito interessados e muitos já querem participar diretamente do plantio e manutenção das árvores. Existe uma percepção muito clara de que as pessoas precisam dessa reconexão com a natureza, principalmente dentro de um ambiente hospitalar”, relembra.
Segue explicando que o hospital pretende capacitar as equipes para utilização adequada do espaço e das práticas integrativas. “Vamos precisar estudar sobre essa atuação bastante porque é um tema relativamente novo dentro do ambiente hospitalar. Precisamos construir protocolos, capacitar as equipes e entender como integrar diferentes áreas do conhecimento dentro desse processo.”
A iniciativa já conta com apoio da Prefeitura de Campo Largo, da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, da Secretaria Municipal de Saúde, além de apoio institucional ligado ao Governo do Estado, e tem potencial para se tornar referência nacional. “No Paraná, acreditamos que seremos pioneiros nesse modelo dentro de um hospital infantil. Existe muito interesse em acompanhar os resultados que esse projeto poderá produzir ao longo do tempo”, destaca Karina.
A avaliação é compartilhada pelo IFPR. “O significado desse projeto ultrapassa fronteiras. A forma como o hospital estabelecerá as relações entre cuidado integrativo e segmento florestal poderá servir de referência para outras instituições públicas e privadas”, finaliza Érica.