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Comper fortalece igualdade racial e quer resgatar a história da população negra na cidade

Comper fortalece igualdade racial e quer  resgatar a história da população negra na cidade

Campo Largo se aproxima de mais um aniversário no próximo dia 23 de fevereiro, quando completará 155 anos, e uma parte essencial da história do município ainda segue pouco conhecida e, até considerada por alguns como “apagada”: a grande contribuição da população negra na construção da cidade. É justamente esse passado que o Conselho Municipal de Política Étnico-Racial (Comper) busca resgatar, por meio de pesquisas históricas, ações educativas e políticas públicas que valorizam a igualdade racial e combatem o racismo na cidade.

A Folha conversou com a diretora de Direito, Defesa da Mulher e Igualdade Racial, Everli Santos, que explica que o trabalho do Comper tem sido intensificado nos últimos anos, citando principalmente o apoio da gestão municipal, e revela o plano de recuperar fatos e memórias desses campo-larguenses que ajudaram a formar a cidade como ela é hoje.
“O Comper existe desde 2012 como um órgão fiscalizador das ações relacionadas à igualdade racial no município. O conselho passou por uma reestruturação no último ano, graças ao apoio da gestão, que deu liberdade para que o conselho trabalhasse de forma plena. Na nova composição, o conselho passou a ter todas as representatividades necessárias, incluindo religião de matriz africana, cultura, capoeira e juventude negra, entre outros segmentos. Com isso, o Comper realizou o 1º Fórum de Igualdade Racial e a 1ª Conferência Municipal Étnico Racial de Campo Largo, além de participar de evento em Foz do Iguaçu”, retrata.

Dessa atuação, nasceu também a Diretoria da Igualdade Racial, criada para promover políticas públicas específicas e efetivas no município.
Ao longo da entrevista, Everli comenta que, infelizmente, Campo Largo viveu um apagamento histórico grande quando o assunto é a população negra, sendo este um tema ainda pouco abordado, mesmo sabendo-se que muitos lugares foram construídos por mãos negras. “A gente não pode apagar essa história. Por isso, o Comper tem em seu planejamento o Plano Étnico-Racial, o primeiro plano de igualdade racial do município. Nele, serão registradas datas, nomes e fatos que comprovem a participação negra na construção de Campo Largo, resgatando a história que foi apagada”, conta.

Reforça que a população que se interessa pelo assunto ou que possua histórias e documentos que possam auxiliar no resgate está convidada a participar deste movimento. “São histórias que a gente precisa contar porque foi um passado que se construiu esse presente. O objetivo é construir um futuro em que a história real seja reconhecida. Nós temos uma cultura rica e muito bonita, há negros que descendem também de reis e rainhas, não apenas de pessoas escravizadas. Precisamos buscar essa parte histórica bonita também”, acrescenta.

Igualdade racial na prática
Após a reestruturação, o Comper passou a desenvolver diversos projetos e ações no município, voltados para fortalecimento cultural, combate ao racismo e promoção da igualdade. Entre os projetos em andamento estão o Clube de Mães no Quilombo, que visa o fortalecimento territorial e coletivo entre mulheres, com foco na autonomia e fortalecimento emocional; o projeto “Luz, Câmera e Ancestralidade”, com exibição de filmes sobre cultura negra, como forma de letramento racial; o samba de roda para mulheres e a capoeira como defesa pessoal para mulheres.

Everli reforça que essas ações não são exclusivas para pessoas negras, mas para toda a população, pois o objetivo é unir e combater o racismo.
No que diz respeito ao acompanhamento de casos de racismo, Everli explica que o Centro de Referência de Assistência Social (CREAS) é o órgão responsável por esse trabalho, mas o Comper desenvolve campanhas para orientar a população sobre onde denunciar e quando existe o racismo.

Ela relata um caso que teve desfecho positivo ainda em 2025. “Uma mulher haitiana foi vítima de racismo em uma empresa de Campo Largo. Acompanhamos ela desde o boletim de ocorrência, com apoio psicológico e recolocação no mercado de trabalho. Esse caso teve o que chamaria de um desfecho ‘perfeito’ e é um exemplo do que pode ser feito quando há acompanhamento. Porque a situação de racismo deixou ela arrasada, tanto na parte social, profissional, pessoal. Ela apenas chorava. Quando eu a encontrei, no final de dezembro, ela já era outra pessoa”, retrata.

A diretora explica que não há números consolidados de denúncias, porque muitas pessoas não sabem onde recorrer. Para orientar, o Comper criou uma cartilha antirracista, explicando o que é racismo e como denunciar. Além disso, o Comper firmou parceria com a Agência do Trabalhador para promover letramento racial dentro das empresas, e pretende atuar também em escolas e outros ambientes, visando reduzir o racismo desde a raiz.
Everli ressalta que o crime de racismo não prescreve, mas que a denúncia tardia exige comprovação. Para que um caso seja considerado válido, é necessário que a vítima tenha provas e registros. Ela afirma que pessoas em situação de vulnerabilidade tendem a identificar o racismo tardiamente, e que as mulheres negras, especialmente, têm dificuldade de reconhecer os episódios devido ao impacto psicológico e social.



Intolerância religiosa e o combate à violência contra terreiros
Everli aborda também a intolerância religiosa, lembrando que terreiros sofrem ataques no município por falta de conhecimento e preconceito. Ela explica que o Comper realizou o Dia de Combate à Intolerância Religiosa em setembro de 2025 e pretende repetir o evento este ano.
“O evento contou com representantes de diversas religiões, como padre, pastor, babalorixá, iyalorixá e representantes de casa espírita, com o objetivo de mostrar que todas as religiões são iguais e que ‘Deus é um só’, como popularmente é falado. Falta nós vivenciarmos isso”, diz.
Relembra que ao buscar informações sobre terreiros em Campo Largo, a sua fonte mais assertiva acabou sendo a Guarda Municipal, devido aos registros de ocorrências por casos envolvendo intolerâncias religiosas contra essas pessoas. Porém, ressalta que, com o passar dos anos e com mais conhecimento sobre a prática das religiões de matrizes africanas, muitos destes terreiros estão saindo das regiões remotas da cidade e vindo para áreas mais centrais.



Miss e Mister Comper e resgate da beleza negra
Entre os projetos voltados à autoestima e reconhecimento da cultura negra, o Comper promove o Miss e Mister Comper, que em 2026 ocorrerá em novembro. Everli destaca que a ação no Dia da Consciência Negra foi marcante, com desfile afro e depoimentos emocionados de mulheres que se reconheceram como pessoas pretas pela primeira vez.
“Se reconhecer como pessoa preta é um processo de fortalecimento, e resgatar a beleza negra é essencial para formar mulheres potentes e fortes. Infelizmente, a nossa vida toda ouvimos quando criança e adolescentes que nosso cabelo é feio e ruim, nossa cor é feia. Há um trabalho grande a ser feito e evidenciar estes traços da beleza negra é um passo importante e que tem mudado a vida de muitas mulheres”, conta.



Quilombo Palmital dos Pretos
O Quilombo Palmital dos Pretos existe há mais de 200 anos em Campo Largo, na região do Três Córregos, interior do município, conforme informações publicadas pelo Estado do Paraná. A comunidade é formada por famílias negras que vieram de várias regiões do Estado na busca de liberdade e de terras para se estabelecerem. De acordo com pesquisa publicada pela Universidade Estadual de Ponta Grossa, em 2022, o local foi certificado no ano de 2006 pela Fundação Palmares, que também reforça que o modo de transmissão de conhecimento e cultura na comunidade é a oralidade.

O nome da comunidade traz referência à grande quantidade de palmito existente nas terras dos negros, e os traços mais marcantes da comunidade são a alegria e a festividade. Everli conta que há 48 famílias vivendo na comunidade hoje. O trabalho realizado é de resgate cultural, para que o valor do território seja preservado.

“O quilombo não é isolado, lá as pessoas têm internet e conhecimento. O que precisa ser recuperado é a cultura, que foi sendo apagada ao longo do tempo. O foco do trabalho é a valorização das mulheres, que são maioria na comunidade. No Clube de Mães, são realizadas oficinas e ações voltadas à autonomia financeira e ao resgate cultural, inclusive com histórias de outros quilombos”, completa.
Em relação à produção para gerar renda, as mulheres fazem pintura em pano de prato e biojoias com miçangas, além de oficinas de macramê e barro. A intenção é realizar em breve uma feira com os produtos feitos por elas.