Domingo às 01 de Fevereiro de 2026 às 01:05:35
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Avanço da adultização infantil na internet leva à proposta de lei e reforça atenção das famílias

Avanço da adultização infantil na internet leva à proposta de lei e reforça atenção das famílias

O tema que dominou a internet nesta semana foi a denúncia do influenciador e youtuber Felipe Bressanim, o Felca, sobre a adultização de crianças e adolescentes e o abuso cometido contra elas por meio da exposição indevida na internet.
O vídeo, que levou meses para ser produzido, já ultrapassa 35 milhões de visualizações no canal “Felca” e apresenta, de forma direta e sensível, casos de crianças que atuam como youtubers ou influenciadoras, mas acabam expostas a contextos de duplo sentido, gerando imagens erotizadas que podem estimular a pedofilia e o abuso sexual.
A Folha de Campo Largo conversou com a psicóloga infantil Letícia Gonçalves (CRP 08/2412), formada em Neuropsicologia pela Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP), que explicou as implicações dessa exposição e alertou pais sobre os riscos, inclusive quando a própria criança deseja produzir conteúdo.
Segundo ela, a exposição infantil não é novidade. “Na década de 1990 já havia programas de TV com crianças, mas o acesso era limitado a horários e canais específicos, com algum controle dos pais. Hoje, redes sociais e plataformas digitais permitem acesso constante, sem supervisão. O algoritmo ainda reforça conteúdos semelhantes, ampliando a exposição. O perigo aumenta quando a própria criança cria e compartilha vídeos, buscando validação por curtidas e comentários.”
No vídeo, Felca exemplifica como o algoritmo do Instagram pode direcionar rapidamente conteúdos sexualizados de crianças, mesmo em contas novas. Isso demonstra que menores, sem restrições parentais, também conseguem acessar material pornográfico com facilidade.
Letícia explica que esse contato precoce com conteúdos adultos afeta o desenvolvimento emocional, comportamental, cognitivo e social. Pode gerar ansiedade, medo e curiosidade antecipada, levando a comportamentos e linguagens sexualizadas e à exposição a riscos. “O consumo pode normalizar violência ou sexualização, distorcer a visão de relacionamentos, papéis de gênero e a percepção do próprio corpo”, alerta.
Além disso, o excesso de telas sem supervisão aumenta a vulnerabilidade a contatos abusivos, prejudicando identidade e autoestima. Crianças tendem a adotar comportamentos, linguagem e valores dos influenciadores que seguem, moldando conceitos de sucesso, beleza e conduta social. “O algoritmo cria uma bolha, reforçando padrões irreais e comportamentos de risco”, completa.

O que é adultização infantil?
O termo descreve crianças que adotam precocemente interesses, comportamentos e modos de vestir típicos de adultos, muitas vezes influenciadas por conteúdos digitais.
Para a psicóloga, não é possível isolar completamente as crianças do mundo online, mas é essencial estabelecer limites de tempo de tela, plataformas e tipos de conteúdo. É igualmente importante supervisionar o que é assistido, ensinar sobre privacidade, incentivar brincadeiras offline e contato com a natureza, além de desenvolver uma leitura crítica do que se vê.
“O vídeo que repercutiu na mídia sobre a adultização infantil é pesado, mas necessário. Sugiro que pais e famílias que ainda não assistiram, possam procurar e assistir pois serve de alerta a todos, visto que nossas crianças estão cada vez mais consumindo conteúdos inadequados e fazendo uso de plataformas digitais e redes sociais”, diz Letícia.
Nesta semana, o deputado estadual Ricardo Arruda (PL) protocolou na Assembleia Legislativa do Paraná o Projeto de Lei nº 594/2025, que proíbe a sexualização de crianças e adolescentes no estado por meio de redes sociais, plataformas digitais e outros meios de comunicação. A proposta veda a divulgação de conteúdos com comportamentos, linguagens, vestimentas ou contextos de cunho erótico incompatíveis com o desenvolvimento infantil, prevendo sanções como multas, suspensão de atividades e encaminhamento ao Ministério Público. A medida busca proteger a infância diante do avanço desse tipo de conteúdo na internet, reforçando o papel do Estado, conforme a Constituição e o Estatuto da Criança e do Adolescente. O projeto também prevê canais de denúncia, campanhas de conscientização e parcerias com plataformas digitais para remoção de material nocivo.

Conteúdo escondido, mas assimilado
Nem sempre o conteúdo parece nocivo à primeira vista. No entanto, a psicóloga alerta que ele pode transmitir mensagens prejudiciais de forma sutil, como a sexualização precoce por meio de coreografias, roupas ou falas que incentivam comportamentos para os quais a criança não tem maturidade; a valorização excessiva da aparência; a normalização da violência e do desrespeito travestidos de humor; o estímulo ao consumismo e à busca por status como forma de aceitação; e a pressão por desempenho e perfeição, muitas vezes mostrando resultados sem esforço ou desconsiderando erros e processos. “O perigo está na sutileza. Por isso, além de monitorar, é necessário conversar sobre valores, comportamentos e linguagens”, reforça a psicóloga.

Jogos com chat aberto precisam de atenção redobrada
Em julho, o país se chocou com o crime cometido por um adolescente de 14 anos contra a família no Rio de Janeiro. Investigações apontaram que ele se inspirou em um jogo de terror com mensagens de incesto, canibalismo e assassinato, tendo como sua “cumplice” a namorada de 15 anos que também jogava, mas vive em outro estado. O caso evidenciou os riscos dos chats abertos em jogos.
Segundo Letícia, nessas interações a criança pode se deparar com linguagem imprópria, bullying, assédio e tentativas de manipulação por desconhecidos. “Isso pode gerar ansiedade, insegurança e comportamentos impulsivos para tentar provar seu valor aos outros”, explica.
Ela recomenda estabelecer horários e limites de interação, jogar junto em alguns momentos e incentivar o diálogo. “Ensinar sobre segurança digital é fundamental, não compartilhar dados, fotos e reconhecer conversas suspeitas. A criança deve sentir que pode contar aos pais sem medo de punição.”
Sinais de alerta para as famílias incluem mudanças bruscas de humor após jogar, evitar falar sobre com quem interage, passar longos períodos online à noite, usar expressões inadequadas, se isolar de amigos e familiares, receber ou enviar mensagens privadas fora da plataforma, surgimento de gastos não explicados e medo de mostrar o chat aos pais. Nestes acasos é válida a busca por ajuda profissional.

Quando a criança quer ser criadora de conteúdo
A exposição constante a influenciadores pode despertar nas crianças o desejo de também criar conteúdo, associando isso a sucesso e reconhecimento. Letícia acredita que o interesse pode ser aproveitado como aprendizado, ensinando sobre criatividade, planejamento e responsabilidade.
No entanto, é essencial estabelecer horários, plataformas e tipos de conteúdo permitidos, além de orientar sobre não compartilhar dados, rotinas ou imagens íntimas. “Antes de abrir um canal público, vale testar formatos mais seguros, voltados apenas para familiares e amigos próximos”, sugere.