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Igreja Matriz da Piedade completa 200 anos e traz na história influências da origem de Campo Largo

Igreja Matriz da Piedade completa 200 anos e traz  na história influências da origem de Campo Largo


Localizada no centro de Campo Largo, a Igreja Matriz Nossa Senhora da Piedade completa 200 anos neste dia 02 de fevereiro de 2026 e é considerada pela população como um dos principais marcos históricos, religiosos e culturais do município. Pertencente à Arquidiocese de Curitiba, a Matriz é a quarta paróquia mais antiga da região e sua história antecede a própria elevação de Campo Largo à condição de vila e, posteriormente, de cidade.

Para esta data especial, a Folha contou com pesquisas fornecidas pela Secretaria Paroquial da Nossa Senhora da Piedade e também com o auxílio da historiadora campo-larguense Lindamir Ivanoski, para resgatar detalhes deste importante marco da história, que se confunde com o surgimento do povoado e com a forma como o espaço urbano se organizou ao longo dos séculos em Campo Largo.

Pesquisas do Arquivo da Paróquia de Campo Largo da Piedade e estudos realizados pelas professoras da Universidade Federal do Paraná, Odah Regina Guimarães Costa e Maria Ignês Mancini De Boni, apresentados pela professora Lindamir, apontam que a ocupação da região teve início ainda no começo do século XIX. Conforme a tradição histórica, as terras que dariam origem ao município pertenceram inicialmente ao coronel português Antonio Luiz Tigre e, posteriormente, passaram por diferentes proprietários até serem doadas pelo capitão João Antônio da Costa.

Por volta de 1814, começou a se formar um pequeno núcleo de moradores na região, impulsionado pela antiga Estrada do Mato Grosso, que ligava Curitiba ao interior. Segundo Lindamir, esse eixo viário foi determinante para a organização inicial da cidade. “Era a Estrada do Mato Grosso que vinha lá de Curitiba e passava exatamente pela frente do que hoje é a região central. A igreja, como em muitas outras cidades, acabou se tornando o principal ponto de referência.”
“Por conta da religiosidade dos primeiros habitantes, houve a necessidade de surgir um local de culto. Por devoção pessoal, João Antônio da Costa mandou buscar na Bahia a imagem de Nossa Senhora da Piedade, que chegou a Campo Largo em 1816. A imagem permaneceu por dez anos na casa do tenente Joaquim Lopes Cascaes e de outros moradores da localidade, até ser levada para a capela que começava a ser construída”, segue explicando a historiadora.

Construção da primeira igreja
A edificação da primeira igreja teve início em 1821, executada pelo capitão Jerônimo José Vieira, sob a administração de João Antônio da Costa e com acompanhamento do padre José Joaquim Ribeiro da Silva, que se deslocava de Curitiba para celebrar missas e acompanhar o andamento das obras. As paredes de pedra, ligadas por argamassa de cal e areia, mediam quase um metro de espessura, o que demonstra a importância atribuída ao templo por aqueles construtores desde o momento da construção.
A inauguração solene da igreja ocorreu em 02 de fevereiro de 1826, com a transladação da imagem da padroeira até o novo templo. A bênção da igreja aconteceu no ano seguinte, em 24 de janeiro de 1827, conforme provisão expedida em maio de 1826. Em 16 de outubro de 1828, o capitão Jerônimo José Vieira solicitou ao bispo da Diocese de São Paulo, Dom Manoel Joaquim Gonçalves de Andrade, que a capela fosse elevada à condição de capela curada, garantindo reconhecimento oficial da Igreja.
Em 12 de março de 1841, por meio da lei provincial nº 23, a capela foi elevada à condição de paróquia. Esse avanço acompanhou o crescimento administrativo e populacional da região. Campo Largo foi elevada à vila em 1870 e à cidade em 1882, sempre mantendo a Matriz como referência central da vida religiosa e social.



O templo atual e as suas transformações 
A construção do atual edifício da Igreja Matriz teve início em 12 de outubro de 1918, sob a condução do padre Octávio Júlio dos Santos, com Francisco Kellner como mestre de obras. O presbitério foi a primeira parte a ser concluída. Entre 1920 e 1930, durante o paroquiato do padre Ladislau Kula, a obra avançou significativamente. Coube ao padre Aloísio Domanski finalizar o revestimento externo, a decoração interna, os acabamentos, os altares, a casa paroquial e a aquisição do órgão de tubos, oriundo da Catedral de Curitiba.
A sagração do altar ocorreu em 1º de fevereiro de 1941, ano em que a igreja foi elevada à condição de paróquia inamovível pelo arcebispo Dom Áttico Eusébio da Rocha. Ao longo das décadas seguintes, a Matriz passou por reformas importantes, como a realizada em 1973, 2006 e 2009 e, desde 2020, a igreja passa por um amplo trabalho de restauro, com foco estrutural, telhado, sinos, sacristias e presbitério.



Patrimônio cultural e tradição viva
Reconhecida por sua arquitetura histórica, a Igreja Matriz abriga pinturas internas assinadas por Anacleto Garbaccio e um dos órgãos mais antigos do Paraná. O templo também foi destaque nacional ao servir de cenário para a novela Insensato Coração, da TV Globo, em 2011, aparecendo na abertura da trama. A igreja também já foi nome a documentário e é considerada ponto turístico, tendo em sua praça, Attílio de Almeida Barbosa, o Marco Zero de Campo Largo.
Entre as tradições preservadas e que estão ligadas à Igreja Matriz, além da tradicional Seresta de Reis, que acontece há mais de 120 anos, sempre na primeira madrugada de sábado para domingo do ano, também está a confecção do andor de Nossa Senhora da Piedade, que marca esta data de 02 de fevereiro, mantida há aproximadamente 85 anos pela família Chemin. “Começou com Francisco Chemin, a esposa e as filhas. Hoje os netos continuam. A preparação do andor mobiliza diferentes gerações da família e envolve um cuidado minucioso com flores e folhagens. Depois da missa do dia 02 de fevereiro, muitas pessoas levam uma flor para casa como lembrança”, conclui.