Nas últimas semanas, a Redação da Folha de Campo Largo recebeu algumas mensagens de moradores de diferentes bairros e também da região central relatando incômodo com a presença de pessoas em situação de rua. Entre as principais queixas estão abordagens em residências, pedidos nas ruas e até mesmo uma sensação de insegurança, especialmente no período de fim de ano.
Diante das reclamações, a reportagem buscou a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social e o Centro Pop, responsáveis pelo atendimento especializado à população em situação de rua no município. Segundo a gestão, os dados oficiais apontam na verdade uma redução significativa no número de atendimentos.
O secretário municipal de Desenvolvimento Social, Fabiano Andreassa, explica que a sensação de crescimento está relacionada, muitas vezes, à concentração pontual de pessoas em determinados locais. “Quando cinco ou seis pessoas permanecem em um mesmo ponto, a percepção imediata é de que houve aumento. Mas isso não significa, necessariamente, que o número total de pessoas em situação de rua no município tenha crescido”, afirmou.
O Centro Pop atua como unidade de referência para pessoas em situação de rua ou em trânsito pelo município, oferecendo atendimento técnico, alimentação, higiene pessoal, encaminhamentos para saúde, regularização de documentos, retorno à cidade de origem e acesso ao mercado de trabalho.
O coordenador do Centro Pop, Rubens Gritten Ribeiro, comparou o serviço ao funcionamento da rede de saúde. “Assim como a saúde tem Unidade Básica de Saúde e Unidade de Pronto Atendimento, a política de assistência social tem o Centro Pop. Toda pessoa em situação de rua em Campo Largo ou que esteja de passagem pode e deve ser encaminhada para cá”, explicou.
Segundo Rubens, o atendimento começa com cadastro e escuta qualificada, para entender o objetivo da pessoa no município. “A pergunta principal é sempre ‘o que você quer’. Se a pessoa quer tratamento, nós encaminhamos. Se quer voltar para a cidade de origem, providenciamos a passagem. Se quer trabalhar, fazemos o encaminhamento para a Agência do Trabalhador”, detalhou.
Dados mostram queda nos atendimentos
De acordo com relatórios mensais de atendimento do Centro Pop, houve uma queda expressiva nos números ao longo de 2025. Em agosto de 2024, foram registrados 1.268 atendimentos, enquanto em agosto de 2025 o número caiu para 893. Em setembro, o total passou de 1.192 para 753 e, em outubro, de 1.254 para 670 atendimentos.
Em novembro, a redução foi ainda maior, passando de 1.099 atendimentos no ano anterior para 392 neste ano. “Os números comprovam que o fluxo diminuiu. Isso é resultado de um trabalho contínuo de encaminhamento, retorno assistido e inserção no mercado de trabalho”, destacou Rubens.
Encaminhamentos reduzem permanência nas ruas
Outro fator que contribui para a redução, segundo a equipe técnica, é o rigor no processo de documentação. Pessoas sem documentos são orientadas a regularizar a situação, o que inclui encaminhamento ao Instituto de Identificação, por exemplo.
O diretor do Departamento de Proteção Social Especial, Anderson Luiz Soek, explica que esse procedimento também ajuda a evitar a permanência de pessoas com pendências legais no município.
“A partir do momento em que informamos que será necessário ir à delegacia para emissão de documentos, algumas pessoas optam por seguir viagem. Isso também impacta na redução da permanência irregular”, afirmou.
Ajuda direta pode manter pessoas na rua
Os gestores alertam que a boa intenção da população, ao oferecer dinheiro, comida, entre outros itens solicitados, pode acabar mantendo pessoas nas ruas e afastando elas do atendimento adequado. “Muitas vezes a própria população acaba sustentando essa permanência, oferecendo alimentação em diferentes pontos da cidade. A pessoa não procura o Centro Pop porque já consegue suprir suas necessidades básicas sem precisar de acompanhamento”, explicou Rubens.
Fabiano Andreassa reforçou que a política pública busca oferecer autonomia e dignidade. “Dar uma moeda pode aliviar a consciência, mas não resolve o problema. O que resolve é o encaminhamento para os serviços públicos que existem justamente para isso”, disse.
A equipe relata diversos casos de pessoas que deixaram a situação de rua após atendimento no Centro Pop. Entre eles, trabalhadores que hoje estão empregados formalmente e até já tiraram férias após mais de um ano de vínculo empregatício.
“Nós temos histórias reais de pessoas que estavam dormindo na rua e hoje estão trabalhando, com carteira assinada. Isso não aparece, mas acontece todos os dias”, afirmou Rubens.
Em situações de abordagem insistente, pessoas alcoolizadas ou comportamento que cause insegurança, a orientação é acionar a Guarda Municipal. “Na dúvida, a prioridade é a segurança. A Guarda está preparada para avaliar se é caso de assistência social, saúde ou segurança pública”, orientou Rubens.
Segundo Anderson, o Centro Pop não realiza abordagens de rotina, exceto em períodos específicos, como o inverno, quando equipes são reforçadas para proteção contra o frio.
Para 2026, a Secretaria de Desenvolvimento Social planeja campanhas informativas para orientar a população sobre como agir e para reforçar o papel do Centro Pop. “A informação é fundamental para que a população saiba que existe um serviço estruturado, técnico e humanizado, que respeita a liberdade das pessoas, mas oferece caminhos reais para quem quer sair da rua”, concluiu o secretário.
O atendimento é realizado de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, e é voltado a jovens, adultos, idosos e famílias que utilizam as ruas como espaço de moradia e/ou sobrevivência. O serviço está localizado na Avenida Ayrton Senna, nº 4818, no bairro Bom Jesus. Para mais informações, os interessados podem entrar em contato pelos telefones (41) 3291-5078 ou (41) 99842-0053 (WhatsApp).
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Reclamações sobre abordagens aumentam, mas Centro Pop aponta redução de pessoas em situação de rua