A paralisação poderia resultar em consequências graves, como demissões em larga escala ou até mesmo o encerramento das atividades, o que impactaria diretamente os trabalhadores, a empresa e a economia local
Com cronograma de pagamentos já estabelecido em Assembleia Geral nesta quinta-feira (22), trabalhadores da Porcelana Schmidt voltam às atividades na próxima terça-feira (27). Devido às férias coletivas desde o dia 19 de dezembro de 2025, e sem acordo para voltarem a trabalhar no dia 12 de janeiro deste ano, a empresa está há mais de um mês sem produção.
Uma assembleia já tinha sido realizada no último dia 16, mas dos 187 trabalhadores presentes, a maioria - 107 votos - votou pela manutenção da paralisação até a quitação integral do 13º salário e do salário de dezembro. A proposta rejeitada previa a retomada das atividades em 19 de janeiro de 2026, com o pagamento do salário referente a dezembro de 2025 na mesma data, a quitação da segunda parcela do 13º salário até o final do mês e a concessão de vale-mercado no valor de mil reais, com desconto parcelado nos meses de abril, maio e junho de 2026.
Com essa nova assembleia, nesta quinta, com o Sinpolocal - Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Cerâmica de Louça de Pó de Pedra, Porcelana e da Louça de Barro de Campo Largo, foi aceita a proposta da empresa pela maioria. Com presença de 244 trabalhadores, 181 votaram pela retomada das atividades. O presidente do sindicato, Paulo Andrade, disse à Folha que ficou acertado a volta dos trabalhadores na terça-feira, dia 27.
“A paralisação se deu devido ao atraso da segunda parcela do 13º e ao pagamento no mês de janeiro, de competência de dezembro. Diante disso houve assembleia na qual os trabalhadores não aceitaram a proposta e optaram pela paralisação aguardando uma nova posição da empresa. Durante a semana, o sindicato conversou com a empresa negociando nova proposta e nesta quinta foi feita a assembleia, com presença de 244 trabalhadores. Foi apresentada proposta da empresa e aceita por 181 trabalhadores, ficando assim definida a retomada às atividades da empresa”, explica Paulo.
Ele segue detalhando que a empresa se propôs a fazer o pagamento da segunda parcela do 13º no dia 26, no dia 10 de fevereiro o pagamento referente ao salário de dezembro, vale-alimentação, e o salário de janeiro será parcelado a partir de março - sendo início dia 05 e 20 de cada mês. “Pagamento corrente do mês, vale-alimentação e parcela das férias irá cumprir dentro do mês de março. Se houver atrasos novamente corre o risco de nova paralisação”, completa o presidente do sindicato.
“A empresa vem passando por processo de Recuperação Judicial e ano passado houve evolução no processo, com a homologação e deliberação da venda de alguns imóveis para pagamento das ações trabalhistas, que deve acontecer agora em fevereiro. Com a retomada das atividades, a empresa consegue manter os empregos e garantir o direito dos trabalhadores, que estão bem otimistas com a retomada da empresa. Tem desde funcionário de 5 meses de empresa, mas também de 40 anos de história e todos animados para voltar”, finaliza.
Impacto
A situação tem estimulado uma imagem negativa da empresa no mercado, o que amplia os prejuízos enfrentados pela empresa. A diretoria da Schmidt afirma que sempre manteve histórico de diálogo com o sindicato da categoria, com negociações anteriormente conduzidas de forma equilibrada, mas que se preocupa com a atuação de pessoas externas ao seu quadro de funcionários e de representantes de outro sindicato que vêm divulgando informações distorcidas. Isso tem gerado impactos negativos à imagem da empresa junto a clientes e ao mercado, bem como estimulando a paralisação das atividades.
Segundo a Schmidt, a paralisação total das atividades produtivas comprometeu de forma imediata o ingresso de recursos financeiros, o que inviabilizou o pagamento de salários e demais obrigações, bem como compromissos essenciais como fornecimento de gás, energia elétrica e contratos com prestadores de serviços. Nessas condições, o mercado financeiro deixou de descontar títulos, agravando significativamente a situação econômica, já fragilizada pelo período de final de ano e pelo recesso de diversos setores da economia, que reduziram o fluxo financeiro previsto.
Além disso, quando o movimento foi iniciado, as pendências existentes restringiam-se à segunda parcela do 13º salário e a dois benefícios de vale-alimentação. A manutenção da paralisação, contudo, ampliou de forma significativa as obrigações pendentes, que passaram a abranger salários em atraso, parcela do décimo terceiro, parcelas de férias e benefícios, resultando em um aumento expressivo do montante devido, que hoje totaliza aproximadamente R$ 4 milhões.

A empresa alertou que a continuidade da paralisação poderia resultar em consequências graves, como demissões em larga escala ou até mesmo o encerramento das atividades, cenário que impactaria diretamente os trabalhadores, a empresa e a economia local de Campo Largo. Portanto, a retomada do trabalho é considerada urgente e essencial para a preservação dos empregos e da atividade industrial no município. Mesmo diante desse cenário, a empresa informa que busca alternativas para viabilizar o pagamento dos valores pendentes.
Recuperação judicial e situação financeira
A Porcelana Schmidt encontra-se em processo de Recuperação Judicial, conduzido conforme o Plano de Recuperação homologado em maio de 2025, após nove anos de tramitação.
O processo vem sendo considerado bem-sucedido, garantindo a existência de recursos suficientes para iniciar a quitação das obrigações trabalhistas judicializadas, embora a liberação efetiva aos credores dependa dos trâmites judiciais.
No âmbito da recuperação judicial, já foram realizadas as três primeiras praças de leilões de imóveis da empresa, com resultados positivos e ampla participação do mercado, totalizando uma arrecadação aproximada de R$ 19 milhões. Os bens alienados nesta etapa foram destinados prioritariamente ao pagamento dos trabalhadores, e novas praças de leilão estão previstas, conforme estabelecido no plano de recuperação aprovado.

Os pagamentos aos credores trabalhistas ocorrerão por meio de rateio, sob responsabilidade do cartório do juízo da recuperação judicial, conforme previsto no plano homologado. Em razão do recesso do Judiciário, a expectativa é de que os primeiros repasses sejam efetivados a partir do início deste ano, garantindo maior segurança jurídica ao procedimento.
Apesar dos avanços no processo, a empresa ainda enfrenta restrições operacionais, como travas judiciais no recebimento de valores de clientes e dificuldades de acesso a crédito no mercado, o que impacta diretamente o fluxo de caixa no curto prazo.
FGTS e próximos passos
Solicitado pela Folha, a empresa enviou uma nota informando ainda que os valores de FGTS encontram-se depositados, porém parte dos recursos permanece vinculada à União em razão de trâmites judiciais em andamento, aguardando transferência para a vara competente, o que tem retardado a liberação aos trabalhadores.
A próxima etapa prevista no Plano de Recuperação Judicial é a realização de nova praça de leilões. Caso não haja êxito, o plano prevê a possibilidade de apresentação de propostas fechadas, com condições mais alinhadas às práticas de mercado, cabendo aos próprios credores a decisão final sobre a aceitação das ofertas.
A Porcelana Schmidt afirma que, ao longo de todo o processo, tem buscado preservar sua história e sua operação em Campo Largo, mantendo sua sede no município e priorizando soluções que garantam a continuidade da empresa, a preservação dos empregos e o atendimento com qualidade aos credores.