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Dor causada pelo divórcio pode ser comparada ao luto, diz especialista

Psicóloga fala sobre o sentimento pós-divórcio, dá orientações sobre como reprojetar a vida e também sobre como agir com relação aos filhos do casal.

Foto: Imagem da Internet

Casamentos, na teoria, são realizados com a intenção do amor eterno. Entretanto, é natural que por desentendimento, frustrações, falta de confiança, entre outros milhares de motivos, casais decidam por fim à relação. Esse momento é extremamente difícil e pode causar a dor da perda, sentimento próximo à dor do luto.

A psicóloga Elenice Bonato explica que o fim de um relacionamento se dá, em sua maioria, ou por vias de desgaste, como incompatibilidade, falta de diálogo e desejo, ou então por uma paixão repentina de um dos parceiros por uma terceira pessoa. “No primeiro caso vemos o interesse pelo outro cair, isso pode ser aos poucos ou pode ser rápido. Em geral, todas as fantasias e expectativas que aquela pessoa depositava em seu cônjuge de repente desaparecem e dão lugar aos problemas e às dificuldades do dia-a-dia, momento que você conhece a pessoa verdadeiramente.”

“Outro caso, também bastante recorrente, é o envolvimento de um dos parceiros com outra pessoa. Esse envolvimento é  acompanhado de uma paixão avassaladora, que pode fazê-lo ‘esquecer’, ainda que momentaneamente, todos os momentos felizes e planos que tinha com o seu cônjuge. Geralmente a dor do divórcio é maior nesse caso, porque alguém sempre será pego de surpresa”, explica.

A psicóloga diz ainda que essa dor da separação é muito próxima do luto, de quando um dos cônjuges morre e o outro se vê sozinho e sem saber por onde recomeçar a vida. “É muito comum nesse momento que a dor se assemelhe à morte de um ente querido. É uma separação, porém nesse caso, principalmente em relacionamentos longos, surgem as  conversas, tentativas de reconciliação, visitas aos tribunais para disputas da guarda dos filhos ou por causa da divisão de bens. Tudo isso torna o processo ainda mais complicado e difícil de superar”, esclarece. “Todas essas situações podem fazer a pessoa sentir uma mistura de sentimentos, que vão do amor ao ódio e rancor com muita facilidade”, completa.

Elenice diz que esse enfrentamento também depende da personalidade da pessoa. Algumas são naturalmente mais apegadas, outras já encaram a situação com um pouco mais de conformismo. Mas, independente dessa personalidade, ambas terão que passar pelo processo de reelaboração, que consiste em pensar em tudo o que construiu até esse momento, como um levantamento, para então poder reprojetar os planos e avançar com sabedoria.

“Sabemos que enfrentar esse momento não é nenhum pouco fácil, por isso o papel da família e amigos é fundamental. É imprescindível que eles estejam apoiando e acolhendo, pois momentos como esses podem desencadear ou agravar quadros psicológicos, como depressão, por exemplo”, comenta. “Uma das minhas recomendações para enfrentar esse momento são as terapias de grupo ou individual, que buscam o autoconhecimento e como enfrentar momentos tão sensíveis da vida, como o divórcio”, orienta.

Relações de dependência

“O que eu sempre digo é que um relacionamento, independente se ele é um casamento oficializado em cartório, na Igreja, união estável, hetero ou homossexual, deve ser pautado no amor, união e respeito. São três pilares de sustentação, se um é quebrado, o relacionamento fica bastante prejudicado”, diz Elenice.

Assim, relacionamentos que tenham a presença de abuso moral, físico ou sexual, não devem ser continuados. “Ninguém merece viver apanhando, sofrendo pressão psicológica. Pode ser difícil o processo de separação, mas casos como esses devem ser vistos como uma libertação. Por isso aconselho sempre ter o mínimo de independência financeira, para que em situações como essas, esse não seja um motivo para viver em meio ao sofrimento. Casos de abuso devem ser denunciados, pois ninguém tem o direito de agredir ninguém. Casamento deve ser algo bom, ninguém deve ser feito de prisioneiro”, diz.

Outro ponto ressaltado pela psicóloga é o namoro. O namoro é visto como uma possibilidade de conhecer a personalidade daquela pessoa, sua família, costumes. Assim, é possível avaliar se tudo isso pode construir uma vida a dois. “A grande questão é que no namoro existe aquela paixão cega. Não conseguimos ver defeitos, só qualidades. Os familiares alertam, falam das atitudes incomodas, mas quem está no relacionamento não consegue enxergar. A paixão é importante, mas o namoro também deve dar espaço para a racionalidade”, orienta.

Atenção aos filhos

Depois do casal, independente da idade, os filhos são os mais atingidos nesse processo de divórcio dos pais. “Os pais são porto seguro dos filhos. Eles sabem que estarão protegidos pelos pais, mas quando há o anúncio do divórcio, esse porto seguro se desfaz”, ilustra.

Os pais são responsáveis pelas crianças e não devem de forma alguma se separar deles. “A guarda compartilhada é a melhor opção. Imagina uma criança ter que decidir com quem quer ficar? Ela ama o pai, ama a mãe e ficaria completamente abalada nessa situação. Precisa dos dois presentes na sua vida e educação. Isso pode gerar consequências sérias no futuro, até envolvimento com drogas, por exemplo”, finaliza.