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Mãe campo-larguense faz alerta sobre saúde mental após perder o filho aos 23 anos

Mãe campo-larguense faz alerta sobre saúde mental após perder o filho aos 23 anos

O sorriso, os planos para o futuro, o trabalho, os amigos e a rotina aparentemente normal não impediram que uma dor silenciosa continuasse presente. É essa a reflexão que a campo-larguense Lucimara Savisky, mãe de Cauã Savisky, que faleceu aos 23 anos, busca compartilhar meses após a perda do filho. Ao decidir falar publicamente sobre a própria experiência do filho tirar a própria vida, ela não procura respostas para perguntas que talvez nunca sejam totalmente esclarecidas, mas tem como objetivo alertar famílias, incentivar o diálogo sobre saúde mental e reforçar que o sofrimento emocional nem sempre é visível.
“Hoje eu quero falar porque quero que os pais, responsáveis observem mais seus filhos, conversem mais e prestem atenção aos sinais”, afirma, contando que a história da família foi marcada por anos de acompanhamento psicológico e psiquiátrico, tentativas de tratamento e uma rede de apoio formada por familiares. Mesmo assim, Lucimara relata que o sofrimento vivido pelo filho nem sempre podia ser compreendido por quem estava ao redor. “Às vezes a gente acredita que está tudo bem porque vê a pessoa trabalhando, saindo com os amigos, fazendo planos. Mas nem sempre conseguimos enxergar o que ela está sentindo por dentro”, diz.
Por anos, a mãe acreditou que o jeito mais reservado do filho fazia parte apenas de sua personalidade. Quieto, introspectivo e de poucos amigos, ele parecia diferente de outras crianças da mesma idade, mas nada que despertasse um grande sinal de alerta. Anos depois, ela compreendeu que parte daquele comportamento escondia um sofrimento que acompanharia a família por quase uma década. “Eu não quero que nenhuma mãe passe pelo que eu passei. Se a nossa história puder ajudar uma família a procurar ajuda, já terá valido a pena”, afirma.
O luto ainda é recente e as lembranças permanecem presentes em cada espaço da casa e em cada momento da rotina. Ainda assim, ela acredita que o silêncio não pode impedir que o tema seja discutido. “Durante muito tempo eu me perguntei se poderia ter feito mais. Depois entendi que a gente precisa falar sobre isso para que outras famílias possam enxergar sinais e buscar ajuda. Ninguém está preparado para enfrentar uma situação assim”, relata.

Sinais nem sempre são evidentes
A história da família começou a mudar ainda durante a infância de Cauã. Lucimara lembra que ele sempre foi um menino mais reservado e com dificuldade para socializar. Em determinados momentos, professores e profissionais da escola chegaram a chamar a atenção da família para comportamentos que demonstravam isolamento. Na época, porém, a discussão sobre saúde mental ainda era muito mais limitada do que hoje. Muitas situações eram interpretadas apenas como timidez, traços de personalidade ou “fase”. A entrada na fase da adolescência foi tranquila, até a família se deparar com a primeira tentativa dele tirar a própria vida.
A partir dali, iniciou-se uma longa caminhada envolvendo consultas médicas, acompanhamento psicológico e psiquiátrico e o esforço constante para oferecer apoio. Segundo ela, um dos maiores desafios enfrentados pela família foi compreender que o sofrimento emocional nem sempre se manifesta de forma evidente.
Neste momento, a família aprendeu que cuidar da saúde mental exige atenção contínua e, muitas vezes, uma rede de apoio que envolva familiares, amigos e profissionais especializados. Lucimara recorda que houve períodos de melhora, momentos de esperança e também fases mais difíceis. Como acontece em muitas famílias que convivem com transtornos emocionais, a caminhada foi marcada por avanços e novos “cálculos de rota”. “Nós estivemos ao lado dele o tempo todo. Procuramos ajuda, acompanhamos tratamentos, conversamos, apoiamos. Quem passa por isso sabe que não existe fórmula pronta. Cada dia é uma batalha diferente.”
Ela destaca que muitas pessoas ainda têm dificuldade em compreender a dimensão dos transtornos mentais e acabam julgando situações que desconhecem. “Existe muito preconceito. Às vezes as pessoas acham que é falta de vontade, falta de força ou alguma coisa que a pessoa consegue controlar sozinha. Não é assim. Saúde mental precisa ser tratada com a mesma seriedade que qualquer outra questão de saúde.”

Um problema que preocupa especialistas
O alerta feito por Lucimara encontra respaldo nos números. Dados divulgados pelo Ministério da Saúde apontam que os casos de suicídio cresceram 43% no Brasil entre 2010 e 2019. Entre adolescentes, o aumento foi ainda mais expressivo. Organismos internacionais também demonstram preocupação com o avanço dos transtornos mentais entre jovens e adultos jovens, especialmente após a pandemia.
Especialistas destacam que não existe uma única causa para o comportamento suicida, mas que questões biológicas, psicológicas, sociais e ambientais podem estar envolvidas. Transtornos como depressão e ansiedade, situações de violência, isolamento social, uso abusivo de substâncias e dificuldades de relacionamento estão entre os fatores que podem contribuir para o agravamento do sofrimento emocional.
Por isso, profissionais da área reforçam que qualquer mudança significativa de comportamento merece atenção. Isolamento repentino, perda de interesse por atividades antes prazerosas, alterações importantes no humor ou falas relacionadas ao desejo de desistir da vida devem ser levadas a sério.
Falar sobre o assunto faz a diferença
Embora o tema ainda seja cercado por tabus, especialistas e entidades ligadas à prevenção defendem que conversar sobre saúde mental de forma responsável é uma das ferramentas mais importantes para reduzir o sofrimento e ampliar o acesso à ajuda.
Para Lucimara, esse talvez seja o principal aprendizado deixado por toda a trajetória vivida pela família. “Os pais precisam conversar mais com os filhos. Não apenas perguntar como foi o dia, mas realmente ouvir. Às vezes a pessoa está dando sinais e ninguém percebe. Precisamos criar ambientes em que as pessoas se sintam acolhidas para falar sobre o que estão sentindo. Muitas vezes quem está sofrendo acha que vai ser julgado ou incompreendido.”
Mesmo em meio ao luto, Lucimara encontrou na própria história uma forma de ajudar outras pessoas. Ao compartilhar sua experiência, ela espera que mais famílias compreendam a importância de buscar apoio profissional e de manter abertas as portas do diálogo.
A mãe enfatiza que a saudade permanece todos os dias, mas que se torna difícil deixar uma mensagem para famílias que, talvez, nunca passaram ou pensaram no assunto. “Se eu pudesse deixar uma mensagem para outras famílias, seria para que nunca deixem de ouvir seus filhos, seus irmãos, seus amigos. Às vezes uma conversa, um abraço ou a busca por ajuda podem fazer toda a diferença.”

Onde buscar ajuda
Pessoas em sofrimento emocional podem procurar atendimento nas unidades de saúde, nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), serviços de urgência e emergência ou entrar em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo telefone 188, disponível gratuitamente 24 horas por dia.

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